O que é etnofarmacologia?   Uso terapêutico dos Canabinóides no Brasil;  Fórum Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. Maconha .

O que é etnofarmacologia?    

Maconha- Fórum Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos.  Uso terapêutico dos Canabinóides no Brasil

FITOTERAPIA. Plantas Medicinais e fitoterápicos. 

 Fórum Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos.

 Uso terapêutico dos Canabinóides no Brasil

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A produção de plantas medicinais e medicamentos fitoterápicos: potencialidades e fragilidades

Experiência Exitosa: Os avanços na estruturação de uma cadeia produtiva sustentável de plantas medicinais

Cadeia produtiva de plantas medicinais e fitoterápicos - avanços e fragilidades

Data: dias 14 e 15 de setembro de 2017
Horário: das 9h às 18h
Local: Auditório da Universidade dos Correios - SCEN Lote 4 - Asa Norte, Brasília – DF

Sérgio tinoco Panizza;  Conselho Brasileiro de fitoterapia

sergio@panizza.com.br

maconha.

ETNOFARMACOLOGIA E PLANTAS MEDICINAIS

Uma Fito conversa entre Sérgio Tinoco Panizza e Eliana Rodrigues.

Jornalista: Marcos Gomes.

www.fitoterapia.com.br

O que é etnofarmacologia?

A etnofarmacologia pode ser definida como “a exploração científica interdisciplinar de agentes biologicamente ativos (encontrados em partes ou produtos de vegetais, animais, fungos, minerais com fins medicinais e tóxicos) tradicionalmente empregados ou observados pelo homem” (Bruhn & Helmstedt, 1981). Note que quando falamos de agentes biologicamente ativos não nos limitamos a plantas, mas incluímos também animais (secreções de sapos como o canuanu, por exemplo) e minerais. Um exemplo de remédio mineral é a areia. Frequentemente ouvimos de populações litorâneas: se você levar uma picada de arraia, coloque areia no local para desinflamar. Nesse caso estamos falando de um remédio, a areia, que não é obtido de planta, mas diretamente do solo.

Em populações tradicionais encontramos remédios feitos de partes de animais, como os pelos do quati, usados como afrodisíaco e secreções de perereca empregadas como analgésico. É bom notar que no caso das secreções estamos diante não de parte do animal, mas de algo que ele produz, de um produto animal.

Também podemos dar o exemplo do ninho de determinado passarinho usado como remédio: nesse caso não é parte nem produto, é outra coisa. Todo esse conhecimento se entranha na história de cada uma das medicinas tradicionais que encontramos e precisa ser resgatado.

A grande contribuição da etnofarmacologia com as outras ciências é justamente resgatar as medicinas e medicamentos das diferentes culturas indo até elas, pesquisando-as, estudando-as. Para isso a etnofarmacologia se vale da antropologia cultural  (mais especificamente da etnografia), da botânica, da zoologia – e aviso que também é importante ter um pezinho na farmacologia. Conhecer farmácia enriqueceu meu trabalho, ainda na fase de doutorado e pós-doutorado. Se você conhece farmacologia você já vai pensando quando se depara com uma planta: “Como é que eu vou experimentar isso em ratos?”

Vemos, por exemplo, que índias de determinadas tribos amarram na barriga um tipo de planta, uma embira, quando querem conceber filhos do sexo masculino. Quando querem conceber meninas, amarram outra embira na barriga... “Como vou testar isso em ratos?”,  a pergunta  me veio quando me deparei com a situação.

O  trabalho é mesmo árduo. Primeiro eu tenho de identificar a planta que está sendo usada, e para isso vou ter de utilizar os métodos da botânica. Não adianta eu chegar à universidade ou no laboratório e dizer que determinada planta faz crescer 10 centímetros de cabelo por minuto, seu eu não souber dizer o nome científico dessa planta.

Não posso afirmar simplesmente que é uma planta que o povo local chama de crô. Eu preciso coletar amostras dessa planta, recolher flores e frutos. E tenho de levar esse material a um taxonomista, para que ele possa definir com precisão: essa planta chamada popularmente de crô é um Chenopodium ambrosioides L. (erva-de-santa-maria), por exemplo.

Identificar a planta é só o começo. Além de coletar amostras das plantas, com folhas, flores, frutos, raízes, o etnofarmacólogo tem de pesquisar de que forma ela é usada por determinada população local. Entrevistando a população, lendo estudos, precisa anotar quais são as indicações e quais as contraindicações desse medicamento local.

Muitas pessoas pensam que etnofarmacologia e etnobotânica são as mesmas coisas. A etnobotânica estuda o uso das plantas pelas populações – mas abrange todo tipo de uso, incluindo as plantas que servem para fazer colares e adornos, madeiras para construir barcos, plantas usadas para fazer roupas e também as utilizadas como remédio.

Depois de coletados o material e os dados nos locais da pesquisa, o próximo passo do etnofarmacólogo é levar esse material para especialistas de outras disciplinas, como o taxonomista, que identifica a planta, e o farmacologista, que analisa seus princípios ativos. O pesquisador também deve consultar a literatura que trata da planta e da população que a utiliza.

A pesquisa é necessariamente multidisciplinar e culmina com testes em animais, nos quais doenças são induzidas e a eficácia da planta no tratamento verificada. São a hora em que são investigados e testados os agentes biologicamente ativos usados ou observados pelo homem. A meta é que a pesquisa resulte em patentes e royalties para o laboratório - que com isso paga seus investimentos nos levantamentos etnofarmacológicos, nos estudos farmacologia e fitoquímica, nos testes e na elaboração do novo medicamento.

É importante ressaltar que a etnofarmacologia é abrangente e não se limita às plantas: estuda tanto vegetais como animais, algas, fungos e minerais. Entre os métodos que aqui especificamos, fica evidente que a etnofarmacologia é o que mais funciona quando a proposta é encontrar um novo medicamento. A chance de fazer gol é muito maior. 

Como vamos ver a seguir, se usarmos o critério aleatório, ou randômico, de coletar indistintamente plantas de determinada região, a chance de encontrar um princípio ativo antineoplásico (isto é, que pode funcionar no tratamento do câncer) é de 6%. Se a pesquisa for orientada pela etnofarmacologia, entretanto, probabilidade sobe para 25%. A chance de encontrar um novo anti-hipertensivo aumenta de 31% na coleta ao acaso para 44% na coleta segundo os critérios da etnofarmacologia. Seguindo a mesma comparação de métodos, a probabilidade de desenvolver um novo anti-helmíntico (medicamento que combate vermes) sobe de 9,8% na coleta randômica para 29,3%. E a diferença pode ser muito maior no caso de doenças específicas, como AIDS (de 8,5% para 71,4%).

A razão para o sucesso da etnofarmacologia no desenvolvimento de novos remédios está no fato de ela fornecer pesquisas de cada região praticamente prontas, e que foram desenvolvidas pelos povos tradicionais ao longo de séculos e milênios.

CRITÉRIOS PARA ACHAR UM REMÉDIO

Que critérios a Academia e a indústria farmacêutica usam para estudar potenciais bioativos que podem resultar em novos medicamentos? Os cinco critérios principais são: coleta randômica, quimiotaxonomia, zoofarmacognosia, etnofarmacologia e ecologia química.

Coleta randômica

Por esse critério os pesquisadores vão a determinado país ou região e coletam plantas aleatoriamente. A chance de essa coleta resultar num remédio foi calculada em 1 para 10 mil. É um jogo em que fazer gol é muito difícil.

Quimiotaxonomia

Esse critério dá um salto em relação ao método da coleta aleatória. Ele parte do conhecimento que nós já temos sobre a química das plantas. Sabemos que determinadas famílias de plantas têm propriedades farmacológicas bem definidas. É o caso das Solanáceas, produtoras de anticolinérgicos, como atropina e escopolamina, e de outras famílias como as  Euforbiaceae, as Rutaceae e as Apocynaceae. Se eu for uma indústria farmacêutica ou uma universidade e quiser patentear novos remédios, uma boa estratégia será mandar pesquisadores em campo e estudar famílias de plantas cujo potencial já é conhecido, em busca de novos princípios ativos.

Zoofarmacognosia

A zoofarmacognosia parte da observação de como os animais usam naturalmente as plantas. É o caso de observar bichos, como macacos e cachorros, e observar as plantas que procuram quando sentem algum desconforto. Podemos nos valer dessas indicações para descobrir novos potenciais bioativos.

Etnofarmacologia

O critério da etnofarmacologia ou etnofarmacognosia resgata o uso que as populações tradicionais de cada região fazem das plantas medicinais. Para obter essas informações, o pesquisador vai conviver com pajés, babalorixás, parteiras e outros agentes médicos locais e ver como eles trabalham. A etnofarmacologia identifica que plantas as populações tradicionais usam como remédio. Ela parte de indicações do tipo: “Esta planta serve para eliminar vermes, esta é para dor de estômago”. Foi assim que ficamos sabendo, por exemplo, que a Protim sp. é uma planta vermífuga, a Simaruba sp. é antidiarreica, a Bursera sp. combate diabetes e a Strychnos sp. trata gastrite. A chance de fazer gol é muito maior porque essa medicina já passou pelo laboratório das populações locais: nesse caso a probabilidade de sucesso é de 300 para mil.

Ecologia química

Existe também um quinto critério que pode orientar a pesquisa de um novo remédio: é o da ecologia química. Ela se volta para a relação que existe entre os animais e as plantas ao longo da coevolução. Como as plantas não têm pernas para fugir nem dentes param se defenderem, sua saída é desenvolver estratégias químicas de defesa. Elas produzem diferentes metabólitos, um número imenso de moléculas químicas, para se defender da herbivoria dos animais, por exemplo. E é preciso ter em mente que mesmo uma substância que é tóxica para os animais pode também ter potencial medicinal.

Mundo desconhecido

O que nós sabemos sobre as plantas medicinais existentes no mundo e no Brasil? Não sabemos nada. Embora eu reconheça que na verdade hoje em dia sabemos muito, tenho plena consciência de que isso é muito pouco, diante do que ainda existe para descobrir.

Estima-se que no mundo existam de 250 mil a 300 mil espécies de plantas superiores, considerando tanto as angiospermas, que produzem fruto verdadeiro, como laranja e morango, como as gimnospermas, sem frutos, como samambaias e pinheiros.

Um levantamento feito em 1997 mostra que só 1% desse potencial tinha sido ou estava sendo explorado. Ou seja, isso é praticamente nada. Como já se passaram alguns anos, é possível que o conhecimento tenha aumentado para 2% ou 3%, o que continua sendo muito pouco. Continuamos a não saber nada.

As angiospermas são 99% das plantas que a gente vê por aí no dia a dia. Quer dizer, não precisamos nos estressar quando vemos uma planta: a maior probabilidade é de ela ser uma angiosperma.

As gimnospermas, mais raras, mas bastante distribuídas pelo mundo, são as samambaias, avencas, pinheirinhos de Natal aqueles tristes ciprestes que ornamentam os cemitérios. A mais famosa das gimnospermas em termos de farmácia é a Ginkgo biloba - a vedete da fitoterapia, usada para melhorar a circulação e a memória. Ela não produz fruto, a semente nasce nua direto dos galhos.

Das cerca de 55 mil angiospermas que existem no Brasil, 99,6% são desconhecidas para a ciência. Elas são um universo sobre o qual nada sabemos, desconhecemos sua farmacologia e sua fitoquímica. E isso que não estamos nem falando das plantas inferiores, que são as briófitas, pteridófitas e dos fungos e das algas, que são de outros reinos, mas também são utilizadas para obter medicamentos. E cada uma dessas plantas possui propriedades químicas, úteis ou não. Ou seja, se hoje todo mundo quiser estudar as plantas, se todas as universidades quiserem estudar as plantas, a natureza é um prato cheio, com muitíssima coisa ainda por descobrir.

Cada planta é uma indústria de moléculas químicas. E cada uma delas não produz só uma molécula, produz centenas. Uma simples folha pode conter 500 substâncias diferentes. Não dá para dizer que estamos diante de um campo já esgotado, que não há mais nada para dizer,... Faltam pesquisas, que exigem dedicação e trabalho. O pesquisador tem de virar a planta de cabeça para baixo, analisar quimicamente tanto as folhas como as raízes, as flores, os caules...

Atlas da biodiversidade

O Brasil é o país que detém a maior biodiversidade em todo o planeta. Existem em território brasileiro 55 mil plantas angiospermas, das pouco mais de 300 mil plantas superiores existentes na Terra. A Colômbia fica em segundo lugar, com 45mil. A China tem 27 mil angiospermas e África do Sul, 21 mil. Partindo do primeiro critério de busca de medicamentos que acabamos de abordar, o da coleta randômica, já é possível perceber que as chances de sucesso se concentram no Brasil e nos países da faixa tropical do planeta. 

Os países tropicais se destacam no mundo todo pela grande variedade de plantas existente em suas paisagens naturais. Os campeões de biodiversidade no mundo são: Brasil, Colômbia, Peru, Equador, Venezuela, México e Estados Unidos, na América; República Democrática do Congo, África do Sul e Madagascar, na África; além de Malásia, Indonésia e Austrália, no Pacífico.

Os cinco primeiros países dessa lista já detêm 50% da biodiversidade do planeta, com metade das plantas superiores da Terra (Joffe & Thomas, 1989). Os onze países top de biodiversidade concentram cerca de 60% das plantas do mundo. Se for considerada toda a área tropical do planeta, essa proporção sobe para 70%. É a região em que ocorre maior concentração de biodiversidade.

Biomas brasileiros

O Brasil tem grandes biomas, como a Amazônia, a Caatinga, o Cerrado, os Campos Sulinos, a Mata Atlântica, o Pantanal, a Zona Costeira, e regiões de transição como Amazônia-Caatinga, Amazônia-Cerrado e Cerrado-Caatinga. Nos Pantanais mato-grossenses, por exemplo, existem populações formadas por índios e descendentes de africanos – quer dizer, não são nem índios nem africanos, são uma mistura.

O uso das plantas difere conforme as populações tradicionais de um mesmo bioma. Se pesquisando os índios de diferentes regiões da Amazônia, constamos que eles não usam as plantas da mesma forma. Cada etnia tem sua identidade, sua forma de ver o mundo, sua cosmologia. Mesmo que dividam as mesmas plantas, eles as enxergam e lidam com elas de forma diferente. Essa é a riqueza que o etnofarmacólogo resgata.

Afinal, é para isso que a gente existe. Parece que nós, os etnofarmacólogos, só existimos para nosso trabalho de viajar e passar muito tempo em lugares remotos. Estou até conformada, parece que é para isso que servimos nesta vida. E até no casamento enfrentamos problemas... Eu brinco dizendo que ficamos tanto tempo isolados no mato que quando voltamos outra pessoa já pode ter ocupado nosso lugar...

Remédios genuinamente brasileiros

Vimos que o Brasil ocupa o primeiro lugar no mundo em termos de angiospermas, as plantas com fruto, vedetes da criação de remédios: são 55 mil plantas superiores que produzem fruto. Os dados sobre fauna também são impressionantes, com cerca de 100 mil espécies animais. 

Outra característica importante do Brasil é a grande ocorrência de endemismo. E o que é isso? Endemismo é quando a distribuição genética de uma espécie animal ou vegetal está restrita a determinada região do planeta e não ocorre em nenhuma outra. Na Suíça, por exemplo, até recentemente só tinha sido comprovada a existência de uma única planta endêmica. Recentemente cientistas suíços anunciaram eufóricos que esse índice aumentou em 100%, porque descobriram outra planta... Agora eles têm duas...

Na Alemanha, foram identificadas 16 espécies endêmicas, no Reino Unido, 73. Mas no México, que fica na região tropical do planeta, a quantidade de espécies endêmicas sobe para 3.376. E o endemismo é ainda muito maior na região amazônica, com 25 mil a 30 mil espécies que só ocorrem aqui (Cunningham, 1994).

É preciso considerar que a região amazônica não se restringe ao Brasil e inclui países vizinhos como Colômbia, Peru, Venezuela, Guianas. Mas também é bom levar em conta que o Brasil não tem só a Floresta Amazônica. Só no Cerrado foram identificadas mais de 6 mil espécies endêmicas. E na Mata Atlântica foram registradas mais de 8 mil espécies endêmicas. Não temos dados consistentes sobre os outros biomas brasileiros, que ainda não foram convenientemente estudados, como a Caatinga, que sabemos ser também muito rica em endemismo.

O fato de ser o país que concentra mais endemismo em princípio deveria trazer vantagens enormes para o Brasil no desenvolvimento de novos medicamentos. Somos um país abastado em termos de biodiversidade e em termos culturais, o que faz muita diferença nas pesquisas da etnofarmacologia.

Natureza e gente

No caso do Brasil, a liderança em termos de biodiversidade se soma à grande diversidade humana, expressa por diferentes culturas locais. O país tem 232 etnias indígenas e 1.340 comunidades quilombolas oficialmente identificadas e reconhecidas (Cunningham, 1996). De nada adiantaria se eu tivesse só as plantas e não tivesse os índios que as descobriram. Da mesma forma, seria inútil eu ter os índios se eles não tivessem as plantas. No Brasil natureza e cultura se somam – o que falta é gente investigando essa imensa riqueza.

É cruzando o elemento natureza e do elemento cultura local que se obtêm as melhores informações. De pouco adianta se só os bichos estiverem usando as plantas medicinais... E também de nada valerá se você tiver índios, mas não tiver plantas.

Por isso digo que o Brasil deveria ser o país mais importante do mundo em termos de descoberta de novas drogas, pois é comprovadamente a região com mais biodiversidade do planeta. Isso é ponto pacífico entre os especialistas, inclusive da área de farmacologia. Somos campeões em biodiversidade biológica e também no elemento humano, com muita diversidade de culturas.  

Medicinas diferentes

O Brasil é ponto de encontro de tradições médicas de índios, europeus e africanos e suas combinações em uso por diferentes comunidades locais. Temos, por exemplo, os ribeirinhos amazônicos, os caiçaras, os jangadeiros – populações que não são nem índio nem afro, mas que foram constituídas pela convivência de gente de diferentes origens. São populações que tem muito conhecimento dos recursos naturais das regiões em que vivem.

O professor Diegues da Universidade de São Paulo (USP) trabalhou com o mapeamento da distribuição geográfica das mais importantes culturas regionais do país, exceto índios. Ele localiza, por exemplo, os ribeirinhos amazônicos e os caiçaras do litoral de São Paulo e de Santa Catarina. O mapa foi feito no ano 2000 por  Edes Etiel e registra as principais populações tradicionais não indígenas do Brasil. Estão incluídos  praieiros, caboclos ribeirinhos da Amazônia, extrativistas de babaçu, sertanejos/vaqueiros, jangadeiros, caiçaras, pescadores artesanais, açorianos, ribeirinhos não-amazônicos, caipiras, sitiantes, pantaneiros, campineiros, quilombolas...

Desafios da etnofarmacologia

Na etnofarmacologia nós procuramos os médicos de cada cultura e entrevistamos esses encarregados da medicina e da cura, segundo cada sociedade. No candomblé são os babalorixás, no espiritismo os médiuns, na umbanda é o pai-de-santo.

Na Amazônia, por exemplo, é indispensável consultar um rezador, uma parteira, um curador. Cada lugar vai ter um medico diferente, um sistema de medicina diferente, que vai usar tanto planta como produtos vegetais com óleo, resina, látex, tanto animais como produtos animais, como a pequena pererequinha.

Tudo isso tem de ser percebido e anotado. É preciso identificar a planta ou animal. Eu, por exemplo,  tive problemas para achar o sapo canuanu (Phyllomedusa bicolor, na verdade uma pequena rã) usado como remédio na Amazônia. Nunca consegui ver esse bicho no mato porque ele vive no alto das árvores e se aloja em tocas a 30 metros de altura. Eu só escutava a sua vocalização, os caboclos me alertaram para o som produzido pelo animal. E foi assim que eu acabei por só conhecer o sapo pelo som que ele emite. Durante dias a fio procurei coletar esse animalzinho. Mas o máximo que consegui foi gravar sua vocalização no meio da floresta. 

Esse é um exemplo de que em etnofarmacologia precisamos usar métodos de outras disciplinas, como os da antropologia cultural e da etnografia. A gravação do som foi fundamental para identificar o animal nos arquivos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

Além dessa atenção redobrada e difusa para as informações que chegam,, o pesquisador de outras culturas também deve tomar cuidado, saber como se comportar nesses ambientes onde ele é uma visita. A situação não deixa de ser irônica: eu chego à casa de uma pessoa e digo: “Vou passar um ano aí na sua casa, mas fique à vontade. Vou ficar na sua sala, ver como você faz o feijão, ver como você trata sua mulher, como você trata ou não trata seu filho, mas fique à vontade...”

Trabalho de campo

Quando o pesquisador passa um tempo estudando uma comunidade, ele acaba por se incluir nela, por fazer parte dela. Os colaboradores também vão adquirindo interesse pelo trabalho do pesquisador. Mas é preciso ter distanciamento para fazer as perguntas e interpretar os dados. O etnofarmacólogo tem de ter cabeça de antropólogo e não interferir nos valores locais ou interferir o mínimo possível, se é que isso é possível. Tem de aprender como lidar com as pessoas e saber o que falar - e principalmente o que não falar -, como se vestir e tudo o mais, de acordo com os valores daquela população.

Esses cuidados são necessários porque o pesquisador pode sem querer dar uma direção errada para a pesquisa  e incluir dados que não têm nada a ver. O caboclo diz berinjela e o pesquisador anota abobrinha, por exemplo. Gosto de citar o caso que aconteceu com uma pessoa que conheci. Esse pesquisador foi fazer um levantamento numa comunidade de uma região de represa e chegou todo feliz no laboratório: “Vamos testar o aguapé como analgésico! É assim que ele é usado pela comunidade X... Eu estive lá e vi.” O pesquisador explicou que um caboclo lhe contara que usava aquela planta aquática flutuante que dá belas flores roxas para curar dor de cabeça.

Todos se ficaram animados. Mas fizeram testes em ratos e nada obtiveram. Pesquisaram em camundongos e também não deu resultado. Testaram extrato, infusão, tintura... e nada! O pesquisador então voltou para a comunidade que havia estudado e foi conferir como é que os locais usavam o aguapé. Um rapaz da comunidade lhe mostrou como era empregada a planta: ele pegou uma touceira  na margem do rio e colocou-a sobre a cabeça. “Quando está muito sol, eu me cubro com aguapé molhado e assim não tenho dor de cabeça”, explicou. O caboclo estava certo: usava o aguapé como chapéu para se proteger do sol e do calor mais forte do dia, e com isso se defendia de insolação. Esse detalhe de como a planta é usada parece bobagem. Mas, como estamos vendo, faz toda a diferença...

Quando o pesquisador está numa comunidade local, como ele escuta o que estão lhe dizendo, como ele entende o que está coletando de informação? É bom ter isso em mente porque visitar uma comunidade e fazer pilhas de anotações pode não servir de nada se você não estiver atento aos detalhes. Você tem de estar presente o tempo todo, tem de observar. Aí vai perceber que muita coisa que as pessoas de uma comunidade falam não é exatamente o que elas fazem nem o que elas pensam – exatamente como acontece em nossa sociedade, em que é comum as pessoas pensarem de um jeito, falarem de outro jeito e agirem de uma terceira forma diferente...

Tenho de assumir esse risco como cientista porque sei que sou humana e que um ser humano erra. As pessoas são assim mesmo, tendem a se guiar por ideias preconcebidas. Pode acontecer de o pesquisador perguntar a uma mulher: “Você bate no seu marido?” e ela responder: “Não, não bato” e momentos depois o pesquisador presenciar essa mulher espancando o marido no meio da aldeia. Só observando é que você consegue ajustar a fala das pessoas à realidade. É preciso estar atento, não acreditar de saída no que está sendo dito e sempre observar o que está sendo feito.

Estada de um ano

O indicado é o pesquisador de etnofarmacologia ficar pelo menos um ano na comunidade que está estudando. O período de um ano, de janeiro a janeiro, é perfeito porque é necessário que o pesquisador acompanhe os ciclos da natureza, precisa colher as plantas com flor ou com fruto, para facilitar o trabalho do taxonomista que vai confirmar o nome científico da planta. Sem esses detalhes como flores e frutos o taxonomista não consegue identificar a planta com a precisão necessária.

Como a floração e a frutificação se seguem e se alternam ao longo do ano, esse é o período perfeito para colher material permite identificar a planta sem deixar nenhuma dúvida. Se você estiver numa aldeia indígena, o prazo de um ano facilita inclusive a comunicação, pois no começo você dispenderá muito tempo para estabelecer uma espécie de relação de namoro com os índios que vão te passar as informações sobre as plantas.

Seria absurdo você chegar numa comunidade indígena isolada e ir logo propondo: “Vamos lá para o mato? Quero que vocês me mostrem as plantas que vocês usam...” É impossível. Primeiro você tem de “chegar nas pessoas”, é preciso passar por uma fase de namoro. Para que as pessoas passem informações sinceras e confiáveis, você precisa de uma fase anterior de bom relacionamento, precisa criar laços de confiança com ela. É importante relacionar-se bem com as crianças, por exemplo. Depois dessa fase de namoro é que vem o casamento. “Vamos para o mato, agora que eu confio em você e você confia em mim?” A pergunta fica muito mais sensata nessas condições. Mas essa fase de namoro com uma população local em geral se estende por seis meses, é preciso ter paciência.

Digamos que eu esteja numa comunidade de quilombolas afrodescendentes: eu faço a pesquisa, reúno os dados e os levo para um laboratório com a dica de que deve ser procurada atividade analgésica naquela planta ou produto, por exemplo, baseado no fato de eu ter visto que as populações locais usam essa planta ou produto para aliviar dores.

Assim eu vou arquivando as informações do meu levantamento – alias, para ser honesta, não do meu levantamento, mas do levantamento deles, que eu estou extraindo. O conhecimento é deles, não é meu.

Os laboratórios da floresta  

Nós sabemos que os remédios da indústria farmacêutica nos moldes ocidentais dominantes são testados em animais. Sabemos que cada planta é testada em ratos, camundongos, beagles para chegar a uma constatação científica de seus efeitos. E aí nos perguntamos: “Mas no mato como é que os índios testaram essa planta?”, “Como eles chegaram ao conhecimento que têm sobre essa planta?” A resposta é: “Eles não testaram em roedores, eles testaram na sogra!”

E a piada de certa forma é verdadeira: durante inúmeras gerações muita gente foi vendo que a velhinha doente que consumiu determinada planta morreu – e que outra que se tratou com outra melhorou... Trata-se de um conhecimento que já vem se acumulando na memória da comunidade ao longo de séculos e muitas gerações. E eu quero frisar que esse conhecimento que as comunidades locais produzem tem um valor, tem um preço. E não estamos falando de valor monetário, de valor econômico, é um valor de outra ordem, muito mais precioso: o do conhecimento humano.

Pelo meu trabalho de etnofarmacobotânica, o conhecimento dos indígenas e populações locais que pesquisei se soma ao da humanidade, contribui para ampliar o conhecimento universal. Mas não se trata de um conhecimento que eu produzi, eu simplesmente fui lá e resgatei esse conhecimento que determinada população local produziu – sabe-se lá ao longo de quantos milênios... O conhecimento é dessa comunidade, não é meu. Eu apenas fiz um resgate, empacotando o conhecimento deles em assuntos como “dor de cabeça”, “dor de dente”, “dor de ouvido”, “matar piolhos”. É só prestar atenção para não achar que aguapé é uma planta analgésica quando na verdade o índio a usa simplesmente como chapéu úmido para prevenir insolação... Numa situação ideal uma pesquisa dessas desenvolve um medicamento e ganha royalties.

Corrida para produzir remédios

Um levantamento mostrou que 80% dos laboratórios orientam as pesquisas que orientam a criação de seus produtos pelas informações etnofarmacológicas que obtém da literatura e dos bancos de dados. Ainda são poucos os que mandam pesquisadores em campo. No meu caso quem testa os remédios das minhas pesquisas não é minha sogra... Eu identifico a substância, faço testes em ratos, analiso a estrutura química da substância. Depois eu texto em animais e depois em pessoas. É assim que surgem os medicamentos que são patenteados e recebem royalties. Mas é bom sempre ressaltar que a fonte das informações da etnofarmacologia é sempre tripla: além do laboratório (porque você não consegue a patente se não tiver um laboratório)  estão presentes a universidade que aposta e banca a pesquisa, e os índios, fonte primária dos dados.

A meu ver, essa visão laboratório/universidade/comunidade seria a maneira ideal de encarar esse tipo de atividade econômica. Eu e o professor Carlini propusemos isso no ano 2000, mas infelizmente demos com os burros n’água. Fomos acusados de biopirataria, puseram-nos a plaquinha de biopiratas. O problema é que não conseguimos desenvolver nem um medicamento, mesmo diante do grande potencial com que nos deparamos. Na época, ficou combinado que receberíamos da Fapesp a quantia de R$ 1,4 milhão de reais para fazer um estudo de dez anos. Esses R$ 1,4 milhão bancariam as atividades nos dois primeiros anos do projeto. A meta era testar em ratos drogas de plantas usadas por índios e comprovar ou não sua eficácia. Mas muitos anos se passaram desde 2001, quando o projeto foi aprovado e infelizmente não chegamos a lugar nenhum. Nesse meio tempo com certeza os verdadeiros biopiratas levaram muita coisa para fora do país.  

Posso garantir que nosso trabalho não é e nunca foi de biopirataria. Meu trabalho é de uma pessoa que vai lá, perde o marido, deixa o filho com a mãe e passa anos fora de casa estudando. É um trabalho que precisa desse retiro sociológico, desse tempo que o pesquisador passa convivendo com determinada comunidade. “Ah,  mas hoje temos tecnologia”, muita gente pode alegar. “Vocês podem entrevistar um índio pelo Skype, por exemplo.” Já vou adiantando que não é viável entrevistar um pajé pelo Skype, a gente tem de ir no lugar em que ele vive.

Geralmente o contato com uma nova medicina envolve lidar com povos isolados, que vivem em regiões distantes e de difícil acesso. Se o acesso for fácil, os habitantes dessas comunidades não iriam usar o serviço das parteiras nativas, eles iam levar para dar à luz no hospital da cidade. O fato é que o pesquisador de etnofarmacologia frequentemente tem de ir para lugares de difícil acesso, levado por jipe de tração nas quatro rodas ou por barco. Eu preciso viajar cerca de 12 horas de barco para chegar a uma das comunidades que estudei, por exemplo.

A pesquisa etnofarmacológica é uma atividade fascinante, mas tem esse alto preço: é preciso abrir mão de tudo. Garanto que não deve existir muita gente no mundo que se disponha a abrir mão de sua vida particular, de seu cotidiano por causa de algum estudo ou trabalho... Mas os resultados são sempre muito bons e frequentemente surpreendentes.

E o que acontece se você for uma universidade ou laboratório e quiser fazer um remédio, mas não tem uma hiena para mandar a campo? A resposta: você nesse caso usa os relatos das hienas que foram antes... A alternativa é estudar o que já está nos livros, publicações e bancos de dados. Em vez de mandar gente para o mato, o laboratório se guia pela literatura.

Lado bom e lado ruim

Para demonstrar que as plantas são como nós e também têm seu lado bom e seu lado ruim, vou listar a seguir algumas plantas contraindicadas para gestantes, porque os princípios ativos que eles contêm provocam contrações uterinas, podendo causar aborto:

Sene

pessegueiro (Prunus pudica),

erva-de-santa-maria (Chenopodium ambrosinoides L.),

arnica (Arnica montana L.),

babosa ou aloé (Aloe vera L.), romã (Punica gratíssima).

Informações extraídas de Gestação, amamentação e plantas medicinais combinam? Riopharma XII (57), 2003. Uso racional das plantas medicinais – um compromisso farmacêutico.

Constatamos de vez que, como nós, as plantas têm seu lado bom e seu lado ruim – elas nem sabem disso, elas simplesmente estão ali no mato... Dependendo da dose, um remédio pode se transformar em veneno. E isso não depende só da dose como também da via de administração, de que parte é usada... vários fatores vão definir se a planta faz bem ou faz mal.

Outro exemplo de que me lembro, além das plantas que acabamos de ver, como sene e arnica, é o hortelã. A mulher grávida ou recém-parida pode se sentir nervosa, ansiosa. Nesses casos é comum algum vizinho indicar um chá calmante caseiro: “Ah, tome chá de hortelã, você vai ficar mais calma”. Pois a verdade é que as grávidas e parturientes não podem tomar chá de hortelã, que é abortiva.  Por isso minha advertência e conselho para as gestantes e mulheres que amamentam é: “Gestante não deve usar planta nunca, de forma nenhuma”. 

Todas as substâncias que a mãe ingere passam para a criança, pelo cordão umbilical ou pelo leite. Os estudos com ratos, camundongos, beagles me dão uma boa noção do que acontece com o ser humano. Mas eu só vou ter certeza do que acontece quando passar pelas fases I, II e III até chegar na  fase clínica, dentro dos protocolos internacionais que regulamentam as fases de produção de um medicamento.

O fato é que é contraindicado que as gestantes usem plantas, pois sabemos muito pouco sobre as contraindicações e efeitos colaterais. Um remédio eficaz para tratar uma doença pode, por exemplo, ter efeito teratogênico, isto é, deformante do feto. Isso precisa ser pesquisado. E podemos saber se isso ocorre em ratos, mas o medicamento pode agir de forma diferente no organismo humano. Já está cientificamente comprovado que o hortelã, por exemplo, contrai o útero e reduz a produção de leite, o que o torna contraindicado para gestantes e lactentes.

Até as tradições populares mais inocentes podem ser perigosas, como os conselhos de caipiras e sertanejos para os casos de nervosismo e ansiedade: “Tome um chá de erva-cidreira...” Hoje sabemos que uma gestante nunca deve tomar chá de erva cidreira, e até constatamos que tribos indígenas usam as raízes dessa planta para contrair o útero e acelerar o trabalho de parto.

Um alerta para as grávidas

Viajando pela Amazônia pude constatar a importância do alerta de que nenhuma planta é inocente para as mulheres grávidas, que devem evitar todo tipo de planta medicinal. Quando uma ribeirinha fica grávida ela consulta a parteira seis meses antes do parto para fazer o pré-natal. E no dia do parto a parteira volta, com seus apetrechos característicos: cachaça, pimenta-do-reino, raiz de capim-limão (Cymbopogon citratus, também chamado erva-cidreira), banha de paca ou de anta. Ela faz uma decocção com algumas gotas dessa banha mistura com os outros ingredientes e dá para a pessoa beber. Constatei  que isso é realmente  muito eficiente: a criança nasce praticamente espirrada. E fico imaginando o problema que é a pessoa não saber que o inocente chá de capim-limão tem essa propriedade de contrair o útero, que pode provocar aborto.

Em 1995 eu já tinha consultado os arquivos do INPA e feito testes com ratos. Constatei que as raízes do capim-limão realmente provocam contrações uterinas. Como o ribeirinho testou isso? Ele certamente usou dados sensoriais, dados da memória, analogias e foi juntando tudo isso.

Como os índios descobrem os remédios?

Já vimos a distribuição da biodiversidade no mundo e agora vamos tratar das maneiras que os laboratórios se utilizam para ter os indicadores de bioativo potenciais. Como os índios fazem? Quais são as abordagens e os métodos mais adequados para o pesquisador que está no meio do mato? Como os laboratórios fazem para descobrir seus novos remédios?

O primeiro elemento a considerar é o que eu chamo de memória sensorial. Aquele indiozinho que está no meio do mato cresce ouvindo as coisas que o avô fala sobre determinada planta e para identificá-la ele pega, cheira, lambe, rasga... Como o nosso, o universo dos índios é lúdico. A criança pega uma borboleta, arranca as patas, a asa, brinca com ela. E é brincando que eles aprendem sobre a vida e sobre a natureza. O indiozinho vai guardando todas essas descobertas, o cheiro, o sabor, a textura de cada folha ele vai gravando em sua Winchester. Sem nem mesmo se dar conta, desde a mais tenra infância ele vai montando seu banco de informações sensoriais. Se ele se tornar pajé, é a esse banco de memória sensorial que ele vai recorrer para resolver os problemas de seus pacientes.  E que método os índios usam para organizar suas informações?

O LADO ESPIRITUAL

Uma planta nunca é encarada como uma simples planta. Para as culturas tradicionais as plantas têm uma explicação religiosa, elas são sagradas e precisam ser colhidas no tempo certo, pedindo autorização para o santo certo, existe todo um ritual.

Teoria das assinaturas

Constatei também que em geral o método de raciocínio usado pelos índios para armazenar suas informações médicas é muito parecido com o da teoria das assinaturas, sistematizada por Paracelso (Theophastus Bombastus von Hohenheim-1493-1591). Paracelso foi um químico suíço e em seus estudos chama a atenção para o fato de as coisas do mundo poderem ser interpretadas de acordo com sua aparência externa. A aparência das coisas, sua forma, cor e textura, revelaria uma assinatura de para que servem essas coisas. Assim, analisando a aparência externa de cada planta (assinatura) seria possível ver nela assinaladas suas características e virtudes. O índio também observa como a planta é usada na natureza, como os animais se utilizam dela, por exemplo. E o índio vai usar principalmente a intuição para guia-lo nesse raciocínio.

Um exemplo de teoria das assinaturas é o da semente que tem o formato de uma peçonha de cobra e que no pantanal é usada para tratar picada de cobra. Outro exemplo  é a planta chamada kapran-kohiré, que em língua indígena significa “espinha de tartaruga”, que vamos abordar adiante.

Vimos que a teoria das assinaturas de Paracelso garante que a natureza revela as características e propriedades das plantas para quem souber ler isso. Segundo essa teoria, se nós observarmos atentamente cada planta ou animal com certeza seremos alertados sobre a melhor forma de usá-los em nosso próprio benefício. Dentro do complexo pensamento dos indígenas, que em seu livro O pensamento selvagem, Levi Strauss demonstrou ser tão sofisticado como o nosso pensamento ocidental. E o raciocínio predominante nessa medicina tradicional é o da analogia. Você está com problemas de rim? Então vou te fazer um acha com sementes que têm formato de rim. É um raciocínio que também é parecido com o da homeopatia de Samuel Hahnemann, em que “o semelhante cura o semelhante”.

E é fácil constatar que nós somos mesmo assim, tendemos a pensar guiados por analogias. Isso explica os apelos da publicidade que agora está mais regulamentada. Mas antes era fácil ver uma marca de xampu associada à imagem de uma mulher bonita e gostosa, sugerindo que o uso desse xampu vai nos contaminar com aquela beleza e gostosura que as imagens apresentam. O fato é que o tempo todo estamos fazendo analogias desse tipo – esse fenômeno não ocorre só entre os índios. Esse método das analogias foi o que ajudou esses índios a memorizar suas tradições. Eles resolvem seus problemas usando essas associações e analogias em que se baseia seu sistema médico.

Para casar ou para “ficar”

Outra demonstração de raciocínio semelhante ao da teoria das assinaturas de Paracelso é dada pelo seguinte exemplo que coletei entre os índios Krahó, no Centro-Oeste do Brasil. Lembro que eles me disseram: “Vem ver, Pequê, esta planta serve para casar e esta aqui para namorar”. Os Krahó me chamam de Pequê. “Pequê, veja que esta planta é para casar.... Pequê veja que esta planta é só para namorar”, explicaram-me. Hoje em dia em vez de namorar já devem estar usando a palavra “ficar”, amplamente divulgada pelo país afora... E eu perguntava: “Mas como vocês fazem para essa planta promover o casamento? E eles explicavam: “A gente pica esses galhos entrelaçados, faz um pó bem fininho e põe na comida do rapaz com quem queremos casar”, contou uma índia.  Segundo a índia, uma vez ingerida a planta, o rapaz fatalmente acabará pedindo em casamento a moça que lhe administrou a poção.

O assunto, aliás, me interessou muito... Sempre fui curiosa quando o assunto é casar, separar.... Costumo colecionar receitinhas de todas as comunidades locais que visito....

Quando eu perguntei para a índia minha informante por que uma planta era para casar e outra servia só para namorar, ela foi logo me advertindo: “Mas você  não está vendo: nesta planta para casar os galhos nascem juntos e vão se enrolando um no outro, os galhos se cruzam e se enrolam. Pode bater vento, pode cair tempestade, nada consegue separá-los”. É o que acontece com o casamento: tem horas que você pode até ter vontade de dar no marido uma bica que o mande para a África, mas você na verdade não quer se separar dele e quer continuar vivendo junto com ele.

Acabamos de ver a receita para o casamento e a sua explicação. Agora, para os que querem só “ficar”, vamos revelar a receita para arrumar namorado que a índia Krahó me ensinou. Ela me mostrou uma orquídea e explicou como a flor deveria ser esmagada e passada na pele. “Esta é a receita para namorar: você pega a seiva dessa orquídea, que é doce, e passa no corpo. Quando você encontrar a pessoa, encoste nela e vá ficando...”

Como identificar a teoria das assinaturas nesses casos? Essa é a parte mais louca e poética do raciocínio flagrado pela pesquisa. Para os Krahó, essa orquídea simboliza o próprio ato sexual, basta olhar atentamente a flor: o gineceu, que é o órgão feminino e fica no meio da flor, pela aparência fálica simboliza na verdade o órgão masculino, enquanto as estrias nas pétalas simbolizam pelos pubianos onde esse órgão masculino está se inserindo. É possível enxergar a flor como representação do coito. E para esses índios é óbvio que essa flor serve para fazer água de namoro: não há o que discutir ou questionar... Esse é um raciocínio típico dessas culturas nativas.

Outro exemplo de aplicação da teoria das assinaturas é a planta chamada pau-de-leite. De todas as partes dessa  árvore, tronco, folhas, raiz, sai muito látex branco. Para os índios como para nós também, o líquido branco representa o leite materno. E o que o leite materno é para nós durante toda uma importante fase da nossa vida? O leite materno é alimento, é fortificante. Pois os índios usam esse látex exatamente como fortificante. É o mesmo raciocínio que indica usar as partes vermelhas para fortalecer o sangue e tratar anemias, como no caso da perereca-vermelha. Enfim, dá para notar que os índios usam as mesmas pistas apontadas por Paracelso em sua teoria das assinaturas.

Fumaça calmante

Outra coisa fácil de notar e que eu mesma pude presenciar e constatar é que os índios observam as relações entre os animais e as plantas. Por exemplo, existe uma planta que os Krahó chamam de kapran-kohiré-rô, esse é o som da palavra na língua timbira. Kapran quer dizer “tartaruga”, e kohiré significa “espinha dorsal”, “coluna vertebral”. E o que essa “espinha da tartaruga” transmite? Lerdeza, por exemplo. E de fato o consumo dessas folhas nos deixa tão lentos como tartarugas. Curiosamente, as folhas dessa planta se parecem com as da maconha.

Mas como foi que os índios descobriram a utilidade dessa planta? Essas folhas são de fato fantásticas, fazem efeito semelhante ao da maconha, relaxam, propiciam sono... Pois os índios usam a planta para acalmar os filhos e fazê-los dormir.  De fato, quem é mãe ou pai conhece a fundo esse problema que é aturar filhos pequenos o tempo todo. Tem horas que a pessoa sente vontade de dar uma bica nos filhos, de lança-los para o espaço – e olhem que falo por experiência própria...

Pois a solução que os índios dão para esse problema é faze um cigarro com essas folhas secas e picadas. Então a mãe deita o moleque na rede e lhe dá o cigarro para fumar. Ele fica calminho, calminho e logo apaga... Quem tem filhos sabe a vontade que dá de fazer isso... Eu cheguei a perguntar para um índio: “Mas como vocês descobriram que essa planta serve para acalmar?” Ele me respondeu: “Tanto eu como meus antepassados caçadores percebemos que quando os veados comem dessas plantas eles ficam mais lentos e é mais fácil caçá-los”.

Quer dizer, os índios descobriram as propriedades da planta observando seu efeito nos animais. E viram que ela é capaz de dopar o animal mais rápido do Cerrado, que é o veado. Esse tipo de observação constitui o laboratório em que os índios se baseiam. O negócio é observar os animais – e a sogra...

Mas não precisamos ir longe. É só lembrar do café, que já chegou a sustentar a economia brasileira na primeira metade do século passado.
As propriedades estimulantes do café teriam sido descobertas por um pastor de uma tribo nômade da Etiópia, região de origem dessa planta.

Vozes da intuição

Quero ressaltar aqui a importância da intuição para a pesquisa científica e tecnológica. As pessoas que descobrem coisas são em geral guiadas pela intuição. Na sua teoria das personalidades, o psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) ressalta que existem pessoas que são mais intuitivas naturalmente, que são portadoras de uma personalidade marcada pela intuição. Uma característica dessas pessoas que descobrem é justamente a personalidade intuitiva.

Segundo Jung, a intuição é um tipo de conhecimento. A intuição é, antes de mais nada, uma forma de obter conhecimento. A intuição está diretamente ligada com o que chamamos de percepção através do inconsciente, sem o recurso das sensações externas. E de fato sabemos que as sensações proporcionam conhecimento. Elas nos trazem conhecimento: olhamos, pegamos, cheiramos, lambemos e ficamos conhecendo uma planta, por exemplo. A intuição é diferente, pois não envolve sensações. A pessoa só tem percepção, ela conhece tão bem o seu ambiente que consegue resolver muitos problemas apenas reagindo intuitivamente a eles e sem usar o raciocínio lógico. Os problemas estão tão inseridos no contexto da vida da pessoa que ela os resolve mecanicamente, de forma automática.

Os sonhos são um exemplo de intuição que pode revelar conhecimentos. Esse é o caso de um dos pais da química o alemão August Kekulé (1829-1896), que conseguiu descrever a estrutura química do benzeno a partir de um sonho que teve, com uma cobra que mordia a própria cauda. Esse conhecimento, esse insight que os sonhos podem revelar, vem diretamente do nosso inconsciente.

Pensamento selvagem

O conhecimento que obtemos das sensações, que é consciente, difere, portanto, do conhecimento que nos é dado pela intuição, que é inconsciente. Certa vez eu andava por uma trilha com um índio Krahó quando ele parou e me falou, apontando: “Está vendo aquela planta? Eu estou estudando aquela planta”.

Nos aproximamos dela e paramos para observar: as folhas estavam tomadas de galhas, que enchiam sua superfície de bolinhas e rugosidades. As galhas são produzidas pela ação de pequenos insetos, que fazem as plantas desenvolverem pequenos tumores dentro dos quais esses bichinhos se alojam. O índio me falou que estava procurando plantas de folhas assim rugosas contaminadas pela galha porque seu filho estava com uma doença que fazia sua pele ficar rugosa. “Vou ver se essa folha resolve o problema do meu filho”, disse o índio.

A indicação do uso daquela planta específica não veio do nada. Não dá para alegar que o índio esteja usando um critério aleatório para escolher a planta. Ele se guiou por um raciocínio bem rigoroso. Usou sua memoria sensorial, a teoria das analogias, a observação dos animais e principalmente a intuição.

Um exemplo de as substâncias vegetais não são descobertas apenas na base da tentativa e do erro é o ayahuasca. Essa bebida alucinógena não foi obtida na base da tentativa e do erro, pois combina duas plantas diferentes. Se os índios fossem combinar aleatoriamente as mais de 55 mil plantas que existem na Amazônia para saber qual combinação faz efeito, essa pesquisa iria demorar uma eternidade. Como eles conseguiram reunir duas plantas que são quimicamente complementares nesse universo de 55 mil diferentes plantas?

Outro dia colhi um exemplo de planta que ilustra bem a teoria das assinaturas, embora eu não saiba para que serve... Encontrei no câmpus da Universidade Federal de Mato grosso uma espécie que produz folhas em forma de borboleta. Olhar para essa folha nos dá consciência de como nosso pensamento é associativo, nós logo a associamos com uma borboleta... Esse é só um exemplo para ilustrar o assunto que estamos abordando.

Essa maneira de pensar é automática na gente, apesar de conhecer o rigoroso método científico, é a poesia que nos guia na vida, que guia os homens dos mais diferentes povos. O raciocínio por analogias e metáforas está no nosso sangue, nos genes que compartilhamos com os animais. Todos temos lá para trás um rabinho de selvageria.

Presença do imaginário

Toda vez que um etnofarmacólogo se propõe a resgatar a medicina popular ou tradicional sabe que vai se deparar com forte conteúdo religioso. Além dos ingredientes o pesquisador vai se defrontar com rituais e explicações mágicas. E de fato na história de todos os povos a medicina e a religião meio que se complementam. Não faz sentido encará-las separadamente. Um exemplo clássico de associação de religião e medicina popular pode ser conferido na cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará. Lá existe um enorme museu dedicado ao Padre Cicero (1844-1934), um padre que também foi líder messiânico.

O museu dedicado ao padre Cícero exibe ex-votos e estátuas de pessoas que fizeram a romaria para o santo e alcançaram graças. E existe todo um repertório de plantas medicinais cuja recomendação foi dada ou é atribuída ao padre, que é um santo popular. É impossível separar essa mistura de religião com medicina popular, pois uma de certa forma explica e reforça a outra. E é assim que temos uso de plantas medicinais no xamanismo, na umbanda, no catolicismo. A medicina popular sempre vai ter um pezinho na religião.

Estudos do CEE da Unifesp

Agora vamos apresentar rapidamente alguns trabalhos do CEE (Centro de Estudos Etnobotânicos e Etnofarmacológicos) da Unifesp.  Quero ressaltar que a missão do CEE é desenvolver estudos interdisciplinares, com colaboração de botânicos, zoólogos, farmacólogos, químicos, agrônomos, antropólogos, geólogos, microbiologistas e médicos O CEE trabalha com diversas instituições, como Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Universidade de São Paulo (USP), Instituto Adolpho Lutz e outros. O foco das pesquisas são as  práticas médicas de dezenas de comunidades locais de todos os tipos espalhadas pelo Brasil e algumas fora do Brasil.

O CEE foi criado em 2007 no Departamento de Ciências Biológicas do câmpus de Diadema. Dentre as dezenas de estudos desenvolvidos ou em desenvolvimento, vou destacar um realizado na Amazônia, que foi meu tema no mestrado e seria depois retomado e ampliado por uma aluna de doutorado.

Em 1995 eu estudei pessoalmente os caboclos ribeirinhos da várzea do rio João e em 2010 foi a vez de uma aluna pesquisar uma comunidade que vive às margens do rio Unini, na mesma região. A ênfase em estudar diferentes comunidades em diferentes regiões tem enriquecido o banco de dados do CEE, que pode ser consultado na internet e reúne pesquisas como uma que fiz em 2001 entre afrodescendentes do Pantanal e entre os índios Krahó da região do Cerrado, outra que realizei em 2007, entre sertanejos do Nordeste, uma realizada em 2008 entre umbandistas e migrantes da periferia de Diadema e a que foi feita em 2009 entre índios Guarani. São pesquisas que abrangem diferentes biomas, como Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Campos Sulinos. O conjunto resulta num importante painel das medicinas tradicionais brasileiras. Todos esses estudos estão no nosso site e podem ser consultado por qualquer interessado. Os arquivos podem ser baixados em PDF.

As matérias primas medicinais que mais se destacam na Amazônia são os produtos vegetais (seivas, látex, resinas, óleos, gomas etc.) e animais (secreção de sapos, banha).

Os defumadores da umbanda

A Mata Atlântica tem sido o bioma mais estudado, justamente porque fica perto das grandes cidades do Sudeste, como São Paulo e Rio de Janeiro. Outra vantagem é que é mais fácil vigiar o aluno quando ele está relativamente perto. Como professora eu sei que o aluno é mesmo uma praga. Você manda um para uma pesquisa no meio da selva amazônica, mas tanto podem voltar três como nenhum. Aqui perto na Mata Atlântica fica mais fácil acompanhar o que o aluno está fazendo e ver o tamanho do estrago.

Mas não é preciso ir muito longe para fazer pesquisas de etnofarmacologia. Fizemos estudos aqui na periferia de Diadema, cidade onde fica o câmpus da Unifesp. Fomos pesquisar os rituais de defumação na umbanda, Constatamos que Diadema tem mais de 220 centros de umbanda e até uma Federação de Centros de Umbanda. Entrei em contato com o presidente da Federação, que se chama Cássio e é um amor de pessoa, que muito  colaborou com os pesquisadores. Pedi que Cássio nos orientasse sobre o uso que a umbanda faz dos defumadores. A meta foi pesquisar as propriedades medicinais dos defumadores e da defumação.

Uma das propriedades que procuramos investigar foi a ação ansiolítica da fumaça, pois já sabemos que muitos aromas de incenso são capazes de nos acalmar e serenar. Também ficamos sabendo por meio de um estudo publicado na revista Nature, comprovando que os incensos industrializados podem irritar a mucosa faríngea e ter ação cancerígena por causa da química. Isso nos alertou para as possíveis contraindicações desse tipo de tratamento, mas nos pareceu evidente que o problema nos incensos comerciais está mais na química usada para sua confecção industrial e menos nos outros ingredientes.

Queríamos conferir os incensos de casa de umbanda, que não têm  química e são feitos jogando cascas, resinas e folhas secas diretamente sobre brasas para produzir fumaça. Investigamos esses “incensos orgânicos” num primeiro momento para saber se as plantas usadas nos rituais da umbanda teriam propriedades calmantes e antiansiolíticas.

Uma aluna de iniciação científica da Unifesp de Diadema encarregou-se de frequentar os rituais e pesquisar quais eram as indicações medicinais de cada planta usada nos defumadores. Uma das plantas a que chegamos foi a  guiné ou tipi (Petiveria alliacea) que faz parte da composição do defumador de sete ervas.

Outro antigo nome popular da guiné é amansa-senhor e remete a uma história bastante interessante do tempo da escravidão. Era comum os senhores abusarem sexualmente das escravas. As cozinheiras, que trabalhavam diretamente na casa do senhor, eram alguns dos alvos mais visados. Mesmo sendo casadas, os senhores abusavam delas, como era costume.

Considerando que os maridos dessas mulheres abusavam não achavam interessante dividir as esposas com os senhores, os escravos chegaram a uma engenhosa solução para o problema. As mulheres secavam e trituravam folhas de guiné até transformá-las em pó fino, que acrescentavam no feijão que faziam para seu senhor.

Por causa da composição química da planta, sabemos que a pessoa que faz uso crônico de altas doses acaba desenvolvendo um quadro de falta de apetite sexual e debilidade mental. Mas isso só ocorre pelo uso contínuo de grandes quantidades da planta, que tem muito uso em medicina popular.

Outra planta usada em defumadores nos rituais da umbanda é a arruda. Um médium chegou a dizer que essa planta é ainda mais forte que a guiné.

Rituais com ratos

Para testar o efeito dos defumadores em ratos, foi preciso criar caixas de acrílico proporcionais a um salão de rituais de uma casa de umbanda. Simulando o ambiente de um ritual e fizemos os ratos participarem das sessões de umbanda. Estabelecemos como meta investigar cientificamente aquilo que a umbanda explicava em termos de religião. Depois de deixar os ratos expostos à fumaça de diferentes defumadores por algum tempo, nós os pusemos em labirintos para testar suas reações, comparando com as de ratos não expostos às diferentes fumaças.

Pois a pesquisa não deu resultados. Curiosamente, apuramos que a folha de guiné têm propriedades ansiogênicas, isto é, ela causa ansiedade – um efeito contrário ao que esperávamos. Constatamos que a raiz da guiné é que possue propriedades ansiolíticas (calmantes) - mas nos limitamos a testar as folhas, que são as partes da planta que os centros de umbanda usam.

O CEE da Unifesp participou também de um projeto internacional de pesquisa. Por meio de um convênio com o Instituto  Men-Tsee-Khang, dedicado a pesquisas de astrologia e de medicina tibetana,  tivemos acesso a medicinas populares da Índia e do Paquistão. O estudo foi feito em 2010, em Dharamsala, norte da Índia, entre monges tibetanos refugiados. Uma aluna da Unifesp foi conferir in loco e resgatar como os médicos tibetanos escolhiam os remédios. Sabemos que seus conceitos de medicina se baseiam em noções de quente e frio, positivo e negativo, coisas desse tipo.

Medo de cientista

O trabalho dos etnofarmacólogos pode encontrar obstáculos por parte das autoridades e do próprio governo, principalmente por causa do desconhecimento da importância e da finalidade dessa nova ciência. Eu mesma quase cheguei a ser presa numa época de minhas pesquisas. Quase todo dia o Ministério Público andava nos meus calcanhares por causa de minhas pesquisas nas comunidades indígenas. O fato é que podemos estudar as comunidades negras quando quisermos, mas o mesmo não ocorre quando se trata de índios. Uma solução que demos para o problema foi indicar literatura para os alunos interessados em estudar a medicina indígena. Em vez de ir aos locais e pesquisar os índios, os alunos passaram a pesquisar em livros e estudar animais. Já que não podíamos estudar índios, passamos a fazer pesquisas com macacos e a estudar relatos de naturalistas que visitaram diferentes tribos.

As pesquisas nas comunidades indígenas continuam até hoje prejudicadas pela burocracia. Atualmente os pesquisadores não podem nem chegar perto de uma tribo e já são vistos com desconfiança. Nossas fontes passaram a ser os clássicos da botânica, como a obra de Pio Correa, Dicionário das Plantass Úteis no Brasil e das Exóticas Cultivadas, em sete volumes, que descreve os usos populares de milhares de plantas, e o Zoobiblion, livro do século 16 que aborda propriedades medicinais de animais e seus produtos. A solução foi pesquisar o que foi escrito sobre plantas medicinais desde o século 16.

Por conta dessas dificuldades técnicas o CEE hoje une estudos de etnofarmacologia com índios, afrodescendentes, caiçaras e etc. para desvendar de que forma as plantas e animais são usados nas diferentes medicinas tradicionais. Também estudamos o uso espontâneo das plantas por macacos e cachorros. O assunto é bastante complexo e envolve colaboração de veterinários e primatólogos. Uma área interessante dos trabalhos do CEE são os estudos de etnoveterinária. Verificamos que os índios Aguaruna, do Peru, administram as plantas por via nasal tanto para eles mesmos como para os animais que usam para caçar.

Os aguarunas do Peru esfregam determinadas plantas nos focinhos dos cachorros para melhorar seu olfato e melhorar a caça. Essa mesma forma de administrar plantas por via nasal é usada para tratar verminoses e debelar quadros de febre, por exemplo. A técnica consiste em pulverizar os ingredientes, que um índio sopra no nariz do outro com auxílio de um canudo. Comprovamos que os índios se tratam com as mesmas plantas que usam para tratar seus animais no caso de doenças como dermatites, verminose e febre.

Pesquisas de campo

O Centro de Estudos Etnobotânicos e Etnofarmacológicos (CEE) da Unifesp desenvolveu trabalhos tanto entre populações indígenas isoladas como entre populações migrantes da periferia de grandes cidades, como os umbandistas de Diadema, por exemplo.

Vamos abordar três medicinas tradicionais de três regiões distantes no Brasil: populações ribeirinhas da Amazônia formadas por  caboclos que vivem nas margens do rio Minini, no Parque Nacional do Jaú. Também abordamos os índios Krahó do Tocantins, no Cerrado, e centros de umbanda em Diadema, na Grande São Paulo. Três religiões são abrangidas nessas pesquisas, o xamanismo, o catolicismo e a umbanda.

A pesquisa que fizemos na Amazônia ilustra os desafios do pesquisador. Ele precisa estar com a alma atenta do caboclo ou do índio, que inter-relacionam fatores, numa visão que é instintivamente multidisciplinar. E foi essa a ideia do estudo planejado para dez anos e financiado pelo Biota da Fapesp. Desde o início, o objetivo não era procurar o óbvio, não era voltar para aquela região da Amazônia e coletar plantinhas. Nos propusemos a estudar produtos, como os exsudatos vegetais e animais. Queríamos óleos, seiva, látex, gomas, resinas, secreções. Estudamos, por exemplo, secreções animais, como toxinas de rãs que os índios usam para fazer vacinas.

Parque Nacional do Jaú

Quem sobrevoa o Parque Nacional do Jaú vê diferenças nos tons do contínuo mar verde que cobre todo o parque e a distância consegue distinguir pelo menos dois tipos de mata: a de igapó, que passa parte do ano debaixo d’água, e a de terra firme, que não sofre inundações.

O parque Nacional do Jaú fica no Estado do Amazonas, noroeste da Amazônia brasileira, numa área de 2.272 mil hectares. Os rios Unini, mais ao norte, e Jaú, ao sul, correm paralelos e são ambos afluentes do rio Negro. Essa região foi estudada pelo Centro de Estudos Etnobotânicos e Etnofarmacológicos da Unifesp em dois momentos: 1995 e 2008-2012. Importantes estudos foram publicados sobre o assunto, como os dois estudos de E. Rodrigues:  Etnofarmacologia do Parque Nacional do Jaú, AM, Revista Brasileira de Plantas Medicinais 1 (1): 1-14, e Plants and animals utilized as Medecines in the Jaú National Park (JNP), Brazilian Amazon, Phytotherapy Research.

No mapa da página .....pode-se ver em destaque na parte de baixo do quadro a região do Rio Jaú, que foi tema de um primeiro levantamento realizado em 1995. Logo acima está assinalada a área da reserva extrativista do vizinho rio Unini, estudada pelo CEE no período 2008-2012. É preciso levar em conta o tamanho imenso do Parque Nacional do Jaú. Com seus mais de 2,2 milhões de hectares, ele  é maior do que países como Israel, por exemplo. É como se fosse um país todo coberto de mata tropical contínua entre duas cabeceiras protegidas de rio. Eu mesma estive na região em 1995 e entre 2008 e 2012, acompanhei trabalho de uma aluna e cheguei a fazer nova expedição de pesquisa acompanhada por um médico. 

Um médico para traduzir as doenças

O trabalho do médico foi muito importante. Em 1995, quando pela primeira vez me estabeleci na região para fazer meus estudos de etnofarmacologia, deparei-me com sérios problemas na hora de traduzir os nomes dados às doenças pelas populações locais para os da medicina acadêmica. Eu simplesmente não conseguia achar os nossos correspondentes para os nomes que eles davam às doenças. Quem resolveu o problema foi o médico que me acompanhou na expedição seguinte. Ele foi fundamental para fazer anamnese e diagnosticar as doenças.

Afinal, não dá para o etnofarmacólogo ser tudo. Nós já temos de ter sólidos conhecimentos de botânica, de zoologia, de farmacologia e de antropologia. Exigir que também dominemos a medicina seria demais! De qualquer forma a medicina também é uma área do conhecimento que muito contribui nas pesquisas etnobotânicas e levar um médico numa expedição pode fazer toda a diferença, pois ele consegue traduzir corretamente os nomes locais das doenças.

No coração da floresta

E foi assim  Centro de Estudos Etnobotânicos e Etnofarmacológicos da Unifesp conseguiu reunir dados de dois locais próximos situados em pleno coração da Floresta Amazônica a partir de dois estudos, um realizado por mim em 1995, e outro realizado por uma aluna entre 2008 e 2012, e que também teve minha participação. Voltei a visitar a região em 2013 e constatei que chegar a essas comunidades continua sendo uma façanha.

Para chegar a essa comunidade cabocla ribeirinha tive novamente de enfrentar 12 horas de viagem de barco navegando pelas águas negras do rio Unini. E de novo passei por extensas áreas de Mata de Terra Firme, cuja paisagem não é alterada na época das cheias, e a Mata de Igapó, que fica debaixo da água durante alguns meses por ano. É também curioso notar como as águas do rio Unini se parecem às do rio Negro, do qual é afluente: elas são escuras por conter grande quantidade de matéria orgânica (húmus) dissolvida. É uma  cor que lembra a da Coca-Cola.

Na região de Mata de Igapó é comum ver belíssimas cenas em que a floresta se espelha e se duplica na vasta massa de água. Uma recomendação que faço é a de que todos visitem a Amazônia logo que tiverem oportunidade. É uma região de uma beleza fantástica, que merece ser visitada. Muita gente viaja de férias para a Europa e nem sabe que a Amazônia também proporciona passeios maravilhosos em que as pessoas vão conhecer coisas únicas, que só existem lá.

Durante o ano de 1995 eu morei junto com as populações ribeirinhas e pude constatar a drástica mudança das paisagens das Matas de Igapó em diferentes épocas, a das cheias e a da seca. É interessante constatar que os ribeirinhos acabam desenvolvendo um GPS na cabeça para se orientar naquele labirinto verde. Porque aquela árvore que serve de referência na época seca, a ponto de a pessoa se orientar por ela (“Vire à esquerda para ir à casa do ‘seu’ Manuel”) fica submersa durante meses na época das cheias. Todo o cenário fica completamente diferente, parece que estamos em outro lugar. Qualquer visitante certamente terá muita dificuldade para se orientar. As constantes mudanças na paisagem dificultam a geomobilidade nesse local.

Como acontece também nas outras comunidades tradicionais, o sistema de saúde dos caboclos ribeirinhos amazônicos estudados pelo CEE se baseia em dados concretos, farmacológicos –  plantas, animais, fungos e minérios usados como remédio – e também em dados culturais, como crenças, defumações, transferência de cuspe...

Sistema caboclo de saúde

1 – Remédios da mata

      Cerimônias de defumação.

2 – Crenças

      Amuletos para proteção individual, rezas, transferência de cuspe etc.

Crenças e ciências

O mundo sobrenatural e as crenças dos caboclos ribeirinhos é que explicam práticas como as cerimônias de defumação e a transferência de cuspe do curandeiro para o paciente. Farmacologia e crenças andam juntas nesse caso. O fato é que sabemos muito pouco sobre fumigação e administração de remédios pela via inalatória.

O curandeiro explica que unta o corpo da criança ou do paciente em banha de jacaré antes de submetê-los à cerimônia de fumigação porque a banha aumenta a absorção dos princípios ativos da fumaça. Nós ainda não pudemos comprovar essa afirmação. Será necessário desenvolver pesquisas pelo método científico, que envolve experiências com animais e humanos. O fato é que essa medicina de unguentos e fumigações foi desenvolvida ao longo de várias gerações e certamente tem a sua eficácia, senão eles não estariam fazendo uso dela até hoje.

Entre essas comunidades ribeirinhas, quem são os médicos? Várias categorias desempenham os papeis que entre nós são exercidos pelos formados em Medicina: rezadores, benzedores, parteiras, curado, curador, desmintidor, médium, entendidos em remédios etc....

Algumas categorias são muito interessantes: o desmentidor, por exemplo, é aquele que trata casos de luxação e mau jeito fazendo massagens com banha de animais. Já os médiuns são em geral afrodescendentes e tiveram influencia do espiritismo europeu. Temos também os entendidos em remédios. São pessoas que não desempenham nenhuma função específica que não a de conhecer os remédios usados por seus pais e avós e que eles também vão usar em seus filhos, parentes e conhecidos. Todas famílias têm os seus entendidos. Toda mulher ribeirinha cultiva um jirau ou um pedaço do quintal em que reúne plantas medicinais para compor a farmácia específica da família com remédios básicos que tratam desconfortos como dor de garganta.

O curado e o curador também dão o que pensar. Como etnofarmacóloga eu tive de conter minha curiosidade. A pessoa que pesquisa uma comunidade tem de saber se conter, saber até que ponto ela pode ir. Se o pesquisador fizer muitas perguntas e colocar seus entrevistados contra a parede corre o risco de que as pessoas que está estudando percam a confiança nele. Eu, por exemplo, tive de me conter por alguns dias até ter ideia do que era um curador.

Descobri que o curador é procurado, por exemplo, pelas pessoas picadas por cobras. O próprio curador acredita que nasceu com um veneno mais forte que o da cobra e que portanto é capaz de neutralizar o veneno que  a cobra produz. Quando uma pessoa é picada por cobra, sua mulher, a mãe, alguém vai correndo buscar o curador. E o curador tem de transferir seu próprio cuspe para a pessoa que foi picada. Ele tem três maneiras de fazer isso: ou ele cospe diretamente na região do corpo da pessoa onde está a picada da cobra, ou cospe em um copo com água, dilui e dá para a pessoa beber, ou o próprio curador cospe diretamente na boca da pessoa que tomou a picada da cobra.

Medicina mágica

A antropologia desenvolveu teorias para explicar sistemas de pensamento mágico como esse, em que ocorre um tipo de transmissão por contágio. Trata-se de um assunto muito complexo, de que não vamos falar aqui, mas que resolvi abordar para dar uma ideia da complexidade do universo de que estamos tratando. É só o cuspe que funciona nesse tipo de medicina? Certamente que não: o cuspe está inserido em um ritual que envolve aplicar o cuspe num primeiro momento, mas em seguida envolve o uso de plantas que são esfregadas no local e administradas ao paciente sob a forma de chás. Além do cerimonial de forte apelo religioso são usadas partes ou produtos de plantas ou animais.

Infelizmente não tive oportunidade de presenciar nenhuma cerimônia de tratamento de uma pessoa picada por cobra. Mas é fácil concluir que essa prática medica deve ter alguma eficácia. Afinal, se o curado morre, o curador perde a credibilidade e a prática com certeza já teria sido abandonada e substituída por outra há algumas gerações. Se não fosse eficaz, com certeza a instituição do curador teria desaparecido, pois as culturas seguem as mesmas leis da natureza e preservam o que é útil.

Procurei os pesquisadores do INPA para saber explicações para a eficácia e o sucesso dessa medicina baseada em transferência de cuspe. Uma das explicações que eles me deram faz algum sentido. Os pesquisadores ressaltaram que os ribeirinhos vão para roça logo que irrompe o dia, lá pelas cinco da manhã. Como as cobras são animais de hábitos noturnos, nessa hora matinal elas estão terminando sua expedição de ingesta de alimentos e estão indo se recolher e passar o dia quietas, jiboiando a comida. Às cinco da manhã a quantidade de veneno disponível nas bolsas situadas na boca da cobra também é menor, porque ela durante a noite toda usou esse veneno para caçar e matar pequenos roedores, por exemplo.

Os pesquisadores do INPA supõem que às cinco da manhã a quantidade de veneno e de enzimas que otimizam a ação desse veneno é muito menor e não seria suficiente para matar uma pessoa. A explicação para o fato de a pessoa não morrer mesmo tendo sido picada por uma cobra muito venenosa estaria no horário da picada e não na eficácia do cuspe do curador... O fato é que ainda não tenho condições de comprovar essa teoria, apesar de ela parecer plausível.

Saberes de homem e de mulher

Pude constatar que as donas de casa ribeirinhas que moram em áreas inundáveis de igapó geralmente providenciam um jirau elevado para cultivar a horta medicinal da família na época das cheias. Outra constatação é que o conhecimento das mulheres ribeirinhas se refere mais a plantas europeias e se constitui num transplante de antigas tradições do Velho continente trazidas desde a época dos descobridores e primeiros colonizadores. Isso é ruim para os pesquisadores, ávidos de encontrar novidades e não plantas já tradicionalmente estudadas.

Eu entendo a frustração. Afinal, a  pessoa viaja milhares de quilômetros, enfrenta horas e horas de estrada de terra a bordo de um jipe ou navega durante o dia todo para chegar a uma comunidade isolada e descobrir que as plantas cultivadas são carnes de vaca como hortelã, manjericão, alecrim... Convenhamos que enfrentar uma odisseia de dificuldades e chegar a um povoado distante para colher hortelã e manjericão é uma coisa muito frustrante!  

As mulheres das comunidades amazônicas são verdadeiros repositórios do saber tradicional europeu que lhes foi transmitido pelas mães e avós. As entrevistas com as mulheres podem decepcionar os pesquisadores de etnofarmacologia, muito mais interessados em pesquisar plantas locais desconhecidas do que plantas medicinais europeias já sobejamente conhecidas.

Por uma questão de gênero, são os homens que conhecem e usam as plantas e árvores locais. Afinal, são eles que se embrenham nas matas para caçar, são eles que sobrem nas árvores, sabem como identificar cada planta local e como tratar com a peçonha dos bichos, com as picadas das cobras, por exemplo. Na Amazônia são os homens que detém o conhecimento sobre as plantas nativas. O pesquisador tem grande probabilidade de perder seu tempo se se limitar a entrevistar mulheres, Os resultados de qualquer pesquisa sobre plantas nativas costumam ser melhores quando as pesquisas são feitas entre os homens amazônicos. São eles que conhecem as árvores, sabem identificar os restos de frutos no chão e conhecem os animais que deles se alimentam. Um homem sabe, por exemplo, que aquela árvore é uma copaíba porque em suas andanças pelas matas já notou que as pacas procuram as folhas dessa árvore para comer.  Também conhece o remédio que exsuda desse tronco. Para quem quer saber alguma coisa sobre a Amazônia, o homem é o alvo.

Diagnosticando doenças

É interessante constatar que os dados específicos que procuramos em populações locais estão sempre imersos no caldo de cultura dessas populações. Entramos na esfera das crenças e precisamos estar atentos aos filtros culturais que nós mesmos fazemos sem perceber. Uma população local é um quebra-cabeça etnofarmacológico.

A tabela abaixo ilustra a importância de levar médicos em campo:  é a tradução dos nomes que os caboclos dão às doenças. Entre os ribeirinhos amazônicos que estudei, depare-me com designações populares de doenças que vão de “mãe do corpo” até “mau olhado”, passando por “vento caído”, “doença do ar”, “espante”, “quebrante”. São exemplos de síndromes culturais, o nome técnico dado para esses casos. O trabalho do médico foi fundamental para essa tradução de nomes da medicina regional para os da medicina tradicional:

NOMES DE DOENÇAS

Medicina regional                  Medicina oficial

Desmintidura             -            luxação

Panema                       -          depressão

Empetibo                     -          lepra

Papeira                       -           caxumba

Rasgadura                  -           mau jeito das costas

Rendidura                   -           hérnia escrotal

Tumor externo           -            furúnculo

Eu ficava sem entender direito quando alguém me dizia esta planta serve para tratar “mal do corpo”. A palavra “panema”, por exemplo, é usada para designar desânimo, quando a pessoa sente que não tem energia para sair para caçar ou pescar porque alguma vez não dividiu com os outros a caça que tinha ou porque jogou algum osso ou resto de caça no chão e uma mulher menstruada depois passou por cima. O pesquisador precisa ter discernimento e fazer abstrações.

A quantidade de remédios para tumores também é enorme. Os ribeirinhos chamam tudo de tumor. Eles falam de tumores internos, de tumores externos e logo percebi que também chamam de tumores os furúnculos. É o mesmo caso do aguapé, que o índio usava como chapéu e o pesquisador pensou que tinha ingredientes que podiam resultar em um remédio... Se o pesquisador pode concluir bobagens, se não estiver atento.

O pesquisador precisa saber traduzir para o seu mundo as palavras e os valores daquele outro mundo que está visitando, que é a comunidade local. O pesquisador tem de transportar os termos da medicina local para a nossa medicina. Se ele não tiver o despojamento de fazer essa tradução, tanto o pesquisador como a comunidade vão perder tempo. A pesquisa não terá serventia.

Remédios locais

No levantamento feito entre 2008 e 2012 pudemos fazer a lista das plantas e animais e seus produtos que essas populações caboclas ribeirinhas da Amazônia utilizam como remédio. Alguns dados são curiosos, como o grande conhecimento das plantas psicoativas.

TABELA

Remédios locais – animais/plantas

Anemia 0/1

Epilepsia 0/1

Anti-aging 0/1

Doenças infecciosas 1/1

Sistema cardiovascular 0/4

Acidentes com animais 1/15

Magia e oráculos 4/2

Sistema músculo-esquelético 5/2

Doenças tropicais 0/7

Sistema imunológico 0/10

Tabus e restrições alimentares 5/7

Sistema respiratório 8/5

Analgésicos 1/12

Febre 1/15

Sistema gênito-urinário 2/15

Problemas dermatológicos 4/13

Sistema gastrointestinal 1/22

Gravidez e bebês 3/22

Processos inflamatórios 5/23

Síndromes culturais 13/17

Drogas psicoativas 13/18

O mundo inexplorado das resinas

O que mais impressiona na Amazônia? O elemento da paisagem amazônica que mais me chamou a atenção foram os paus, as madeiras, as cascas, os troncos das árvores com que nos deparamos a todo momento. Em geral os troncos são as partes das árvores que mais vemos. Muitas vezes não conseguimos nem ver como são as folhas situadas na copa, a 30 ou 40 metros de altura. O pesquisador olha e se pergunta: “Como eu faço para coletar folhas, flores e frutos que nem consigo enxergar na copa dessa árvore tão alta?” É mais fácil identificar as árvores pela cor, pela textura, cheiro e sabor das cascas de seu tronco...

As resinas são um bom exemplo de medicamento muito pouco conhecido e pesquisado. Mas uma resina muito conhecida é usada pelo homem como remédio há milênios: trata-se do própolis, produzido por abelhas.

Alguns óleos extraídos dos troncos das árvores são muito conhecidos, mas pouco pesquisados. Está comprovado que o óleo de andiroba, usado na medicina e em cosméticos famosos, como os da Natura, tem ação anti-inflamatória importante. Os ribeirinhos coletam as sementes e as põem de molho. Depois eles as picam e formam uma massa, da qual extraem a gordura.

Os ribeirinhos também usam o látex que escorre abundantemente pelo tronco de uma árvore chamada acre. Eles  usam para tratar micose. E ficamos a nos perguntar: “Pode ser usada para tratar vitiligo?” Só saberemos se fizermos a pesquisa.

Só nessa região da Amazônia, achamos 18 exsudatos, nada menos que 18 resinas do mesmo tipo da famosa e tradicional própolis. Publicamos recentemente um trabalho a respeito. O fato é que existe um campo enorme de estudos para saber se essas resinas podem ser tão ou mais eficazes que o própolis, se teriam tanto mercado quanto o própolis.

Própolis, a mais famosa

Própolis é uma substância resinosa que as abelhas extraem das plantas e é alterada pela ação do cuspe que esses insetos têm nas bocas. As abelhas coletam esse  própolis que será alterado por sua saliva enquanto se alimentam viajando de flor em flor à procura de néctar. Cada região tem suas flores específicas, seu próprio pasto apícola frequentado pelas abelhas.

Desde a Antiguidade o própolis é reconhecido como poderoso antibiótico natural e sempre teve vasto emprego e muita procura por parte dos que conheciam suas propriedades.

A “vacina do sapo”

É muito curioso o caso da rã Phyllomedusa bicolor (de que os índios obtêm a famosa “vacina de sapo”), também chamada  “kambô”, “cambô”, “sapo-canuanu”, “canuanu” ou “sapo-verde”. Trata-se de uma pequena perereca verde que vive nos troncos das árvores e faz seus ninhos nos buracos dos galhos mais altos. É nesses ninhos que os caboclos catam a secreção do canuanu, que já chegou numa época a ser usado como alucinógena e acabou proibida pela Anvisa em 2006. O breu do canuanu é, entretanto, um medicamento largamente usado pela medicina indígena tradicional.  Tomar “vacina de sapo” desde pequeno é uma prática comum de povos indígenas da Amazônia brasileira e peruana. Tradicionalmente empregada pelas populações do vale do rio Juruá, a “vacina do sapo”  é uma panaceia que serve para tratar desde amarelão até dores em geral.

Os caboclos aplicam a “vacina do sapo” na pele do braço ou da perna, que é ligeiramente escarificada para aumentar a absorção. São feitas por exemplo pequenas queimaduras com agulhinhas de cipó em brasa para em seguida aplicar a resina.

Cronicamente administrada sobre a pele ferida por furinhos quase imperceptíveis, essa substância é vista como uma vacina capaz de prevenir e combater várias doenças. Vieram até cientistas de Israel estudar o caso, gente de Jerusalém veio do deserto para se embrenhar na floresta. Enquanto os cientistas e pesquisadores brasileiros nada faziam por falta de interesse ou estrutura adequada, estrangeiros vieram e estudaram a “vacina do sapo”. As substâncias que foram isoladas dessa secreção dessa colorida perereca amazônica acabaram gerando patentes para vários países. Foram encontradas e isoladas, por exemplo, moléculas de dermorfina e de deltomorfina, substâncias neurotransmissoras semelhantes à morfina, que é extraída do ópio vindo da papoula.

As ações farmacológicas das substâncias contidas na secreção do “sapo da vacina” foram constatadas: ela é analgésica, antibiótica, fortalece o sistema imunológico. Recentemente se comprovou que o medicamento tem grande eficácia no tratamento do mal-de-Parkinson, com pesquisas promissoras de seu uso como antidepressivo e em casos de Aids, câncer e outras doenças.

Como cientista brasileira, tive aquela forte sensação de vergonha alheia quando vi descobertas tão valiosas como essa sendo feitas por cientistas estrangeiros numa coisa que e amazônica, que é da natureza brasileira.

Infinidade de breus

Em 1995, na primeira vez que estive entre as comunidades ribeirinhas do Parque Estadual do Jaú, na Amazônia, deparei-me com vários tipos de breu de uso medicinal. São vários tipos de breus, branco, preto, e podem ser tanto extraídos de plantas como de animais, como é o caso do breu do sapo canuanu, por exemplo.

Os ribeirinhos picam esses breus, queimam, tapam uma narina e cheiram com a outra. Servem para tratar várias doenças, agindo como analgésicos, por exemplo, nos casos de dor de cabeça.

O breu do sapo canuanu é um caso a parte. A pele desse animal solta uma baba que em contato com o ar vai espessando adquire consistência grudenta e resinosa. Quando os  ribeirinhos me mostraram pedrinhas dessa resina, a primeira coisa que me causou espanto foi o fato de elas não terem cheiro. As resinas são compostas principalmente de óleos aromáticos e se caracterizam pelo cheiro.

Sabendo que o  canuanu é uma perereca verde herbícola que vive em buracos no alto dos troncos das árvores tratei de coletar o bicho. Mas dei com os burros n’água. E ainda por cima li o trabalho de dois zoólogos assegurando que o breu do canuanu não passava de uma crença infundada dos caboclos. Segundo esses autores, o ingrediente ativo dessa resina vinha das cascas das árvores em cujos buracos viviam os canuanus. Na verdade, segundo esses autores, o que agia nesse breu de canuanu não era a secreção da perereca, mas a resina de uma árvore chamada ipoteus, ptocerácea de ampla ocorrência na Amazônia.

Os estudiosos acabaram com os caboclos. E eu não me conformei: fiz meu planejamento, peguei meu filho e voltei para a Amazônia, para passar um mês com os ribeirinhos. Anotei as lendas. Entrevistei um rapaz que me disse que falava com sapo. E percebi que todo mundo na verdade tem medo desse sapo. Muitos supõe que a alma desse sapo seja mandingueira, capaz de lançar “mau olhado” e trazer mau agouro.

Pedi para me mostrarem onde vivem essas pererecas amazônicas, pois queria coletar algumas. Eles me levaram e chamaram minha atenção para a vocalização que esses bichinhos fazem. De repente a floresta silencia e a gente ouve aqueles sons que parecem latidos de cachorro. Eu sabia que o sapo estava por lá, em buracos nos troncos no alto das árvores, eu ouvia o estranho coaxar dos benditos sapos – mas não consegui pegar nenhum. O caboclo que me ajudava subiu nos troncos das árvores, enfiou as mãos nos buracos, mas não conseguiu coletar nada, a não ser pedrinhas com o breu do canuanu.

De formas que do sapo canuanu eu só gravei a voz, só consegui documentar a vocalização. Mas isso foi muito útil porque recorri ao INPA, que reúne estudos sobre a natureza amazônica. Pela vocalização foi possível identificar o bichinho que produz o famoso “breu do sapo”. E a questão era saber se o que funcionava na vacina dos caboclos era a secreção do sapo ou a resina da árvore que lhe servia de habitação, como haviam afirmado os autores do estudo que eu tinha lido.

Minha pesquisa resultou em artigo da revista Natural Biology, muito bonitinho. Descobri que o sapo pega as pedrinhas de resina da casca e com elas faz um berço nos ocos da árvore. É aí que ele põe seus ovos. Constatei que essa espécie de sapo libera muita secreção na pele. É uma secreção grudenta, parece cola, e que o sapo produz em duas principais situações: quando está estressado ou quando está desovando. Constatei que o breu dos ninhos fica impregnado dessa secreção. E constatei que aquele breu era uma combinação de produtos vegetais e animais: a resina da árvore e a secreção do sapo.

O estudo químico permitiu comprovar que o caboclo não estava errado e que aquele breu não era uma invenção, uma lenda.

Ritual de defumação

Vi uma cabocla preparando uma poção para defumação. Numa cabaça, ela juntou ninhos de um passarinho e um beija-flor,  resina do sapo canuanu, breu preto, penas de duas aves: arara vermelha e nambu, cascas de coco, couro de jaguatirica (chamada no local de gato-maracajá), pedaços de chifre de veado e de boi, dente de onça, espinhos de uma variedade local de porco-espinho. Os ingredientes ficam guardados em sacos e a cabocla os escolhe e junta a cada cerimônia.

A ribeirinha explicou que quem lhe ensinou a receita foi a mãe, que aprendeu com a avó. Com um facão ela pica e raspa os ingredientes e faz um montinho, que depois será jogado sobre brasas para se transformar em fumaça. O corpo da criança é passado nessa fumaça três vezes ao dia, de manhã, de tarde e no começo da noite, até ela melhorar.

A curandeira passa o corpo que segura nos braços na direção Leste-Oeste e depois norte-sul, fazendo o desenho de uma cruz. Todo o ritual é repetido em cada uma das três vezes ao dia em que é realizado: ingredientes são retirados dos saquinhos, empilhados, picados, raspados e jogados nas brasas. Perguntei por que a cabocla já não picava de manhã os ingredientes que iria usar durante o dia. Assim ganharia tempo... Ela me respondeu que não queria ganhar tempo, queria curar a criança e para isso precisava fazer tudo direitinho. O tamanho dos montinhos que serão jogados no corpo é regulado para cada sessão de acordo com o tamanho do paciente. No caso de adultos, a fumaça é que é passada próxima do corpo.

O cheiro da fumaça é forte, penetrante. E a fórmula difere, de acordo com a doença, de asma a problemas de pele. A fumaça espanta as doenças e traz a cura.  A cabocla me recomendou que a última defumação de cada deve ser feita às seis horas da tarde, para “espantar a doença”.

Calmante natural

Erva-molar-macho (Rudgea viburnoides (Cham.) Bentch. (Rubiaceae)

Indutora do sono, também diminui a pressão e age como anafrodisíaco (diminui apetite sexual)

Afrodisíacos vegetais

Além de estimulantes sexuais, são depurativos e estimulantes da memória.

Pra-já - Ouratea sp. -  (Oschnaceae)

Raiz-de-bugre – Genia sp. - (Sterculeaceae)

Nó-de-cachorro -  (Heteropnterys afrodisíaca O. Mach. -  (Malpighiaceae)

Um alerta dado pelo pajé que me apresentou essas plantas: são ervas que não devem ser usadas por quem tem problemas nos rins. É um tabu daquela cultura que precisamos estudar e analisar. Atentar tanto para as indicações como para as contra-indicações dos médicos locais ajuda a dar caminhos para a pesquisa dos novos medicamentos.   

CONBRAFITO

18º CONGRESSO MULTIDISCIPLINAR DE FITOTERAPIA

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APRESENTAÇÃO

Sou bióloga. Embora tenha feito mestrado em Geografia, não sou e nunca quis ser geógrafa. Sempre quis fazer Biologia. O problema é que época em que fiz graduação o Departamento de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) não tinha o curso que eu queria. Eu  estava procurando alguém que me orientasse na área que desde cedo me interessou: resgatar as medicinas tradicionais brasileiras, como a indígena, a quilombola, a caiçara.

Eu só consegui esse acolhimento na Geografia. Foi nessa época que eu conheci o professor Carlini, já na Universidade Federal de São Paulo. Ele é psicofarmacólogo e trabalha com ratos, camundongos, beagles, não com índios. Os interesses são diferentes dos meus, mas desse encontro resultou um casamento que já tem 12 anos e me fez muito feliz. Por causa desse casamento tive até de aprender a testar plantas em ratos - mas o que eu gosto de fazer, o que me atrai, o que eu sempre fiz foi ir para o meio do mato, conhecer as pessoas que vivem dentro do mato. Desde muito jovem me propus a  entrar em contato com comunidades isoladas para aprender como é a medicina deles.

Minha contribuição como cientista e pesquisadora é para essa área, a etnofarmacologia ou etnofarmacognosia. A meta é mostrar que o conhecimento das medicinas tradicionais é uma valiosa contribuição para a ciência. E a proposta desta apostila é explicar o que é a ciência da etnofarmacologia e depois apresentar três das dezenas de estudos realizados pelo Centro de Estudos Etnobotânicos e Etnofarmacológicos (CEE) da Unifesp. Fundei o CEE em 2007 e sou sua coordenadora, além de também lecionar Unifesp. Os três estudos que escolhi para mostrar nesta apostila abordam medicinas tradicionais de regiões e população específica. Vamos falar de  populações ribeirinhas da Floresta Amazônica, índios da Região Centro-Oeste do Brasil, e até de umbandistas da periferia de Diadema.

Conforme veremos, os “médicos” dessas comunidades têm visões da medicina diferentes da nossa e acrescentam contribuições valiosas para a ciência. Qualquer pajé ou rezador sabe que o mundo das plantas medicinais não é só cura, as plantas também podem intoxicar, também podem matar. Sabem usar em crianças, sabem usar em idosos

A autora

Eliana Rodrigues é mestre em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP), com doutorado e pós-doutorado em Ciências pela Faculdade Federal de São Paulo (Unifesp). Eliana é professora adjunta da Unifesp e coordenadora do Centro de Estudos Etnobotânicos e Etnofarmacológicos da Unifesp de Diadema, SP. Fez diversas viagens pela Amazônia e morou em aldeias de índios e caboclos ribeirinhos para mapear os conhecimentos das medicinas tradicionais. Dessas pesquisas em campo obteve muitos dos dados desta apostila-aula. 

Dr. h. c. Sérgio Tinoco Panizza

Farmacêutico Industrial, Presidente do Conselho Brasileiro de Fitoterapia (CONBRAFITO), Titular da Agricultura no Comitê Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos do governo federal pelo Conselho Brasileiro de Fitoterapia (CONBRAFITO), Membro Comissão de Acupuntura e Medicina Chinesa do Conselho Federal de Farmácia, Membro Comissão de Plantas Medicinais e Fitoterápicos do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP), Proprietário e Farmacêutico (desde 1993 ) pela Farmácia Phytoshop fitoterápicos e homeopáticos, Presidente da Associação Brasileira de Fitoterapia (ABRAPHYTO), Especialização em Acupuntura pelo Centro de Estudos de Acupuntura e Terapias Alternativas - 2009, Autor dos livros: Como prescrever ou recomendar plantas medicinais e fitoterápicos (2010), Uso tradicional de plantas medicinais e fitoterápicas( 2012), Amazônia: Em busca da cura Perdida (2014); Prescrição dos Produtos da Medicina Tradicional Chinesa – Guia Prático-Fitobuscador.

sergio@panizza.com.br

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